Dora Sílvia Cunha Bueno*

Embora tenha passado um tanto despercebido da grande mídia, foi muito importante o alerta que acaba de ser feito pelo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, ao acentuar que mais de um terço dos habitantes da América Latina continuam vivendo em situação de pobreza. Além da questão humanitária intrínseca a esse cenário, não é mais possível vislumbrar soluções duradouras para a humanidade e tampouco estabilidade política plena em meio a assimetrias tão graves.

Obviamente, a grande crise econômica mundial de 2008 e 2009 tem direta influência no agravamento do quadro da miséria, não só em nosso continente, como em outras regiões. No Brasil, felizmente, estudos já demonstraram não ter ocorrido aumento da pobreza. Porém, ainda temos uma parcela expressiva de pessoas excluídas. Portanto, temos de nos mobilizar para vencer o problema.

Mais do que nunca, é preciso ter consciência de que o conceito de sustentabilidade, em sua mais plena acepção, é inexorável, pois não haverá solução eficaz para a própria economia sem o seu equacionamento. Enganam-se os que imaginam estar a origem de crahs, como o que o mundo acaba de vivenciar, apenas no sistema financeiro e no universo da produção. Pobreza, devastação ambiental, criminalidade, instabilidade política e outras questões análogas são fatores geradores de graves turbulências econômicas.

Portanto, são inadiáveis as lições de casa neste período pós-crise, buscando alternativas concretas para problemas estruturais. Não haverá solução efetiva para o capitalismo sem a preservação ambiental,  erradicação da miséria, melhor educação, saúde e habitação, formação profissional e apoio à juventude em situação de risco.

O Planeta está diante de um imenso desafio. Vencê-lo não depende apenas dos fóruns internacionais, da ONU, dos governos e das negociações entre os países. A capacidade de nossa civilização de cumprir com êxito a missão da sobrevivência com dignidade é condicionada à mobilização de cada cidadão, empresa, entidade de classe, setor de atividade e instituição. Todos têm de fazer a sua parte! Esta é a essência de atuação do que chamados de Terceiro Setor, ou seja, a parcela da iniciativa particular que trabalha no atendimento ao público, ao bem comum da sociedade!

No Brasil, assim como tem ocorrido em numerosos países, uma das principais vertentes desse trabalho é realizado pelas fundações, constituídas por famílias, grupos empresariais ou de pessoas físicas e, mais recentemente, pelo próprio poder público. Um interessante exemplo desta última modalidade é a Fundação Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, criada em 2005.

As fundações têm prestado relevantes serviços no campo da promoção social. O seu trabalho abrange programas próprios, em distintas áreas, ou significa importante apoio a organizações beneficentes, culturais, esportivas, educacionais, de saúde e ambientais. É uma imensa rede de solidariedade e benemerência, que tem contribuído para reduzir os problemas socioeconômicos! Ademais, trata-se de trabalho com um bem-vindo efeito colateral, pois estimula o ingresso paulatino de mais e mais organizações nessa corrente do bem! E isso é mesmo necessário, pois o desafio é imenso e exige mobilização cada vez mais ampla da sociedade.

Sem dúvida, portanto, é crucial disseminar a consciência de que a atuação fundacional contribui muito para a inclusão de milhares de pessoas nos benefícios da economia e nas prerrogativas da cidadania. Um  exemplo é a Fundação de Rotarianos de São Paulo, instituição que represento na APF, que mantém, juntamente com o Colégio Rio Branco e as Faculdades Rio Branco, exemplares e eficientes escolas para crianças portadoras de deficiências e para a formação profissional de jovens de baixa renda. Ações como as realizadas pelo Terceiro Setor mantêm viva a esperança de que o mundo poderá encontrar soluções efetivas para a demanda da sustentabilidade!

*Dora Sílvia Cunha Bueno é presidente da Associação Paulista de Fundações (APF) e da Confederação Brasileira de Fundações (CEBRAF).