Por Dr.  George Felipe de Lima Dantas*

Gelson Domingos, da “Rede Bandeirantes de Televisão”, faleceu no dia seis de novembro de 2011, vítima de disparo de arma de fogo de longo alcance quando fazia a cobertura jornalística de uma operação policial no subúrbio carioca de Antares, região da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Antares passou a ser, de alguma forma, uma espécie de “zona de guerra”, por ser tomada e ocupada por uma “Unidade de Polícia Pacificadora” (UPP), conforme já vem sendo realizado desde 2010 em outras localidades do gênero na cidade do Rio de Janeiro.
 
A mídia deu ampla repercussão ao acontecimento envolvendo a morte de Gelson Domingos, fazendo lembrar o início de janeiro deste ano de 2011, quando veiculou matéria sobre “jornalistas mortos em serviço”. Naquela oportunidade o Committee to Protect Journalists (Comitê de Proteção de Jornalistas – CPJ) divulgou as cifras de jornalistas mortos em serviço no mundo. O CPJ, conforme apontado em “Como prevenir mortes entre ‘soldados da informação’” (Edição 623 do “Observatório da Imprensa), “é uma organização sem fins lucrativos, independente (…) e que “promove a liberdade de imprensa globalmente, defendendo o direito dos jornalistas realizarem seu trabalho sem medo de represálias”.
Já agora, nesse mês de outubro de 2011, várias organizações brasileiras vão juntar-se ao CPJ em seus habituais clamores de pesar, protesto e respectivas declarações, em seguida ao anúncio de mais esse “Tombado entre os soldados da informação”. Assim já aconteceu prontamente da parte de organizações do setor jornalístico, caso da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ).
 
As manifestações formais de pesar das organizações do setor jornalístico brasileiro tratam também da necessidade de adoção de cuidados adicionais, no sentido de diminuir os diversos riscos a que estão submetidos os jornalistas. Repete-se o mesmo “clima de dor e pesar” de janeiro de 2011, quando da divulgação da lista de jornalistas mortos globalmente (incluindo vários brasileiros). Fica reiterado o clamor pela busca proativa de novos meios e procedimentos de cautela, de sorte que fique preservada a liberdade de imprensa sem prejuízo da incolumidade dos seus profissionais.
 
Talvez seja oportuno retomar uma referência feita por uma jornalista brasileira, citada no artigo de 04/01/2011 da Edição 623 do “Observatório da Imprensa”. Tal profissional já apontava, menos de um ano atrás, a necessidade de treinamento específico de jornalistas “para sobrevivência em ambientes urbanos violentos”. Mais coincidentemente ainda, referia que “o maior desafio para os jornalistas do país seria trabalhar nas favelas, locais semelhantes a “zonas de guerra”, ainda que sem as regras observadas nas “guerras declaradas”. E foi exatamente em uma favela, a de “Antares”, onde Gelson Domingos foi morto em serviço.
 
Mais uma vez, parece dever ser retomado o tema da preparação de jornalistas que atuam, entre outros ambientes hostis, na “linha de frente” com o crime e a violência. Treinamentos de sobrevivência já são realizados nesse sentido desde algum tempo, conforme também citado na Edição 623 do “Observatório da Imprensa”, “O tema foi objeto de diferentes matérias, dentre outras fontes, no jornal The Independent, noticioso britânico (edição de 21 de julho de 2008), sob o título “Survival training: The hostile environments course that is saving reporters´ lives” (Treinamento de sobrevivência: O curso sobre ambientes hostis que está salvando vidas de repórteres).
 
Gelson talvez tenha ficado próximo demais da “linha de tiro” dos narcotraficantes da favela Antares (sem “cobertura visual” nem “abrigo físico”), ao buscar registrar as melhores imagens para sua matéria… E são as próprias imagens feitas por ele, contidas no respectivo equipamento resgatado do local, que apontam o destemor com que realizou essa que foi sua última missão profissional. Talvez tenha faltado a ele, ainda que sobrando bravura, um necessário condicionamento para situações potencialmente fatais em ambientes hostis, o que é incutido como “procedimento padrão” em treinamentos de sobrevivência ministrados a jornalistas. Nesse sentido, e remontando novamente ao artigo de janeiro de 2011 publicado no “Observatório da Imprensa”, parece oportuno repetir:
 
O paralelismo entre o treinamento de sobrevivência dos profissionais do jornalismo e o de militares fica ainda mais evidente quando, na mesma matéria, é apontado: “Você não espera que um soldado vá para guerra sem treinamento (…). Jornalistas são os únicos profissionais que enfrentam situações de perigo sem terem sido devidamente preparados para tanto” (International News Safety Institute, INSI – Instituto para Segurança da Imprensa Internacional). Depois de referir casos reais em que o treinamento de sobrevivência teria sido decisivo para prevenir desfechos ainda mais adversos, a matéria citada refere uma pesquisa feita pelo INSI e que concluiu que, entre 1996 e 2006, de mil jornalistas mortos, 657 dos casos ocorreram em tempos de paz e nos próprios países dos profissionais falecidos. Função dessa importante conclusão, um treinamento de sobrevivência para jornalistas deve incluir situações tão diversas como demonstrações civis que descambam para a violência, passando por trabalhos de campo rotineiros do jornalismo investigativo (como no caso de Tim Lopes…), sem deixar de incluir, claro, “zonas de guerra”.
 
Talvez já seja tempo do próprio governo federal empreender iniciativas no sentido de disponibilizar assessoria técnica no tocante a equipamentos e procedimentos de segurança para membros da sociedade em geral, jornalistas inclusive. A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) do Ministério da Justiça parece ser o órgão federal identificado com tal propósito. Esse tipo de necessidade irá emergir com maior intensidade ainda em vários outros setores da sociedade, considerando não só o crime e violência usuais, como também os riscos e ameaças inerentes aos compromissos internacionais que o Brasil irá sediar em 2013 (Copa das Confederações), 2014 (Copa do Mundo de Futebol) e 2016 (Jogos Olímpicos). Parece que agora ninguém está mais resguardado do perigo do crime e da violência, incluindo magistrados, policiais e jornalistas…
 
* O prof. Dr. George Felipe de Lima Dantas é coordenador do Núcleo de Segurança Pública da Fundação Universa.

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