- por Mirian Chueiri* –
Como diziam os Titãs “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Até que ponto convém aproveitar-se da imagem e conceito de um evento para atrair um público dentro de uma nova programação e, por assim dizer, “conceito” que descaracterizam o próprio evento? Confuso, não? Mais confuso ainda é ver a programação do Rock in Rio 2011.
O Rock in Rio foi um evento idealizado na década de 80 e conceituado como o maior evento de rock and roll da América do Sul, marcante por ser internacional e polêmico por ter ocorrido mais vezes fora do Brasil do que no próprio País.
Ao conversar com alguns amigos da época, me deparo com o descontentamento sobre a programação desta edição, que contempla Ícones do axé music, entre outros estilos, como atrações. Esqueceu-se que a fama do evento deu-se pelos grandes nomes que já tocaram na “cidade do rock”, como Sepultura, Queen, Red Hot Chili Peppers, Iron Maiden, entre outros ídolos do rock nacional e internacional.
Nada contra a música baiana, mas acredito que esse estilo musical já possuí muitos eventos próprios, como as micaretas ou carnavais fora de época espalhados por todo o País. E por que não contemplar somente o rock? Será que não temos mais público para isso? Os ingressos se esgotaram, mas quem de fato está indo assistir?
Muitos podem dizer que os tempos mudaram, e que até no passado o festival foi eclético, não tendo só bandas de rock na programação. Porém, é importante lembrar que na 3ª edição do festival no Brasil, em 2001, o cantor baiano Carlinhos Brown foi hostilizado pelo público presente, que o atacou a garrafadas enquanto gritava “queremos rock!”. O fato repercutiu de forma negativa. Algo semelhante ocorreu com Lobão na segunda edição do festival em 1991, que o cantor foi escalado para tocar na noite do metal e encontrou a plateia inconformada com o curto show do Sepultura, que havia tocado antes dele, sendo atacado com copos e garrafas. A situação ficou pior ainda quando ele levou para o palco a bateria de uma escola de samba.
Vale a reflexão para os produtores de eventos que oportunizam novos negócios a partir de grandes movimentos culturais, e acabam por descaracterizá-los, a fim de atrair mais público, mas que talvez não seja o seu público-alvo.
*Mirian Chueiri é Coordenadora Cultural da Fundação Universa e Especialista em Gestão Estratégica de Marketing.


8 comentários
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19/05/2011 às 10:57
Mohammed
O nome do festival é apenas marketing, pois a muito tempo que o Rock não tem essa força no evento, como lembrado no texto, a imagem do carlinhos brown sendo vaiado e jogando objetos nele é clássica, acho impressionante não terem chamado o Luan Santana também, pois está forte na mídia. Infelizmente, Rock mesmo é o que menos terá.
23/05/2011 às 11:01
Mirian Chueiri
Obrigada Mohammed! Vc tem toda razão. A impressão que eu tenho é que eles esqueceram o príncipio básico do marketing que é satisfazer as necessidades do cliente, preferindo focar no lucro e atingir a massa da “Indústria Cultural”.
20/05/2011 às 0:57
Ana Paula Gordilho
Querida amiga Mirian,
Concordo com você, e acho, apesar de se baiana, da terra do axé, que Festival de Rock é de Rock, no máximo um Pop Rock… se querem por outros estilos musicais, que mudem o nome do Festival ou coloquem as outras atrações em Palcos alternativos… Fazendo tipo “Tenda do Axé”, “Tenda do Samba”, “Tenda Eletrônica”, como existem em outros Festivais, mas o Palco Principal só deveria tocar Rock e focar na história do Rock.
Imaginem se no Carnaval resolvessem colocar os Trios tocando só Rock? Perderia o foco, não?
Bjo amiga e parabéns pelo texto!
23/05/2011 às 10:57
Mirian Chueiri
Obrigada Paulinha! Acho muito válida a sua observação. É como você falou, colocar rock and roll no carnaval da Bahia não combina. Hoje em dia com tanta diversidade cultural, tem público e nicho de mercado para todo tipo de evento, sendo desnecessária tanta mistura de estilos.
27/05/2011 às 9:09
Iacy Rodrigues da Silva
Oportuno o comentário a respeito de o evento ter perdido o foco. São tantas bandas que nada têm de rock que está difícil escolher o dia “mais” rock. Só faltou banda com conotação religiosa. Ms, pelo andar da carruagem, no próximo isso deverá acontecer.
30/05/2011 às 11:57
Mirian Chueiri
Tem razão Iacy! Obrigada pela partcipação!
27/05/2011 às 14:45
Leonardo Dantas
O mercado fonográfico vive uma crise que vem se arrastando a mais de uma década, após o advento da internet com os downloads ilegais!! Os registros em vídeos também já não sobrevivem devido a pirataria!! Como poderia uma artista então sobreviver a essa via-crucis? Fácil!! Vendendo shows!! Mega-Shows!!! Oportunamente as gravadoras se aproveitam de eventos como o Rock in Rio para que seus artistas possam fazer parte do casting, e conseguem junto aos promotores, excelentes patrocínios, que estão vinculados de certa forma a seus artistas(Ivete/Schin, Claudia Leitte/Guaraná Antártica…). Qual promotor negará essa “ajudinha”? Basta disponibilizar mais alguns dias a mesma estrutura… Para mim, não havendo mistura de públicos e vertentes está ótimo! Depois do que o ocorreu com Carlinhos Brown em 2001, não creio que novos erros como esse irão ocorrer. Assim tenho certeza que dois surfistas podem manobrar na mesma onda, desde que cada um respeite o espaço do outro!!! Fazendo a manobra que quiser!!!!
30/05/2011 às 12:02
Mirian Chueiri
Olá Leonardo! Muito boa a sua colocação em relação a crise que vive o mercado fonográfico, e com certeza, a ajuda de grandes patrocinadores é sempre muito bem vinda para o “mercado cultural”, principalmente com as leis de incentivo, como a Lei Rouanet. Mas, como me referi no post, o que não concordo é com essa mistura de estilos em um evento, cujo conceito era “rock”, inclusive em seu nome. Ainda afirmo que existem muitos eventos de axé music e outros estilos espalhados por todo o país, havendo público para todos os estilos. Vale lembrar, que a programação do Rock in Rio desse ano está “misturada”. Muito obrigada e participe sempre!